Salta al contenuto
FMI Cachucho não é coisa que me traga a mim Mais novidade do que lagostim 1982 José Mário Branco FMI
e a Vera Lagoa, deixem-me só porra, rua, 
larguem-me, zórpila o fígado, arreda, 'terneio' 
Satanás, filhos da puta. Eu quero morrer sozinho 
ouviram? Eu quero morrer, eu quero que se foda o FMI, 
eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se 
foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a 
mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo 
se eu tornar a ir para o hospital, pronto, 
bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso 
seus cabrões, o FMI não existe, o FMI nunca aterrou 
na Portela coisa nenhuma, o FMI é uma finta vossa
 para virem para aqui com esse paleio, rua, 
desandem daqui para fora, a culpa é vossa, a 
culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, 
a culpa é vossa, a culpa é vossa, oh mãe, 
oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe...

Mãe, eu quero ficar sozinho... 
Mãe, não quero pensar mais... 
Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que 
me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a 
casa em vez de mim, outro maldito que não 
sou senão este tempo que decorre entre 
fugir de me encontrar e de me encontrar 
fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que 
se me perguntem? Não pode haver razão para 
tanto sofrimento. E se inventássemos 
o mar de volta, e se inventássemos partir, 
para regressar. Partir e aí nessa viajem 
ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. 
Partida para ganhar, partida de acordar, 
abrir os olhos, numa ânsia colectiva de 
tudo fecundar, terra, mar, mãe... 
Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, 
lembrar nota a nota o canto das sereias, 
lembrar o depois do adeus, e o frágil e 
ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar 
cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, 
partir aqui com a ciência toda do passado, 
partir, aqui, para ficar...

Assim mesmo, como entrevi um dia, 
a chorar de alegria, 
de esperança precoce e intranquila, o azul 
dos operários da Lisnave a desfilar, 
gritando ódio apenas ao vazio, exército 
de amor e capacetes, assim mesmo na Praça 
de Londres o soldado lhes falou: 
Olá camaradas, somos trabalhadores, 
eles não conseguiram fazer-nos esquecer, 
aqui está a minha arma para vos servir. 
Assim mesmo, por detrás das colinas onde 
o verde está à espera se levantam antiquíssimos 
rumores, as festas e os suores, os bombos 
de lava-colhos, assim mesmo senti um dia, 
a chorar de alegria, de esperança 
precoce e intranquila, o bater inexorável 
dos corações produtores, os tambores. 
De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te 
quero cantar, mar antigo a que regresso. 
Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. 
Neste cais eu encontrei a margem do outro 
lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu 
a pena a travessia? Valeu pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro 
histórico da minha classe, no fundo deste mar, 
encontrareis tesouros recuperados, de mim que 
estou a chegar do lado de lá para ir convosco. 
Tesouros infindáveis que vos trago de longe 
e que são vossos, o meu canto e a palavra, 
o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, 
dos vossos antepassados que ainda não nasceram. 
A minha arte é estar aqui convosco e 
ser-vos alimento e companhia na viagem para 
estar aqui de vez. Sou português, pequeno 
burguês de origem, filho de professores 
primários, artista de variedades, compositor 
popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. 
Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, 
muito mais vivo que morto, contai com isto 
de mim para cantar e para o resto.

Informazioni

José Mário Branco album: Ser Solidário famosissima canzone di protesta portoghese che parla del fondo monetario internazionale

Scheda canto

Autori testo: José Mário Branco

Periodo: Dal riflusso alla fine della guerra fredda (1980 - 1989)

Anno: 1982

Lingua: portoghese